Lahésio Bonfim chega à disputa por uma das duas vagas do Maranhão no Senado com uma trajetória marcada pelo discurso extremista religioso e forte identificação com setores da extrema direita e o bolsonarismo. Sua votação na eleição para o Governo do Estado, em 2022, demonstrou que existe no Maranhão um eleitorado expressivo disposto a apoiar esse projeto político. A questão, porém, não é negar a legitimidade dessas posições, mas perguntar se elas respondem às necessidades mais urgentes do Estado.
O Maranhão convive com problemas concretos que não podem ser resolvidos por guerras culturais. Milhares de famílias ainda enfrentam pobreza, baixa renda, falta de saneamento, dificuldades de acesso à saúde, educação com resultados insuficientes, estradas precárias, falta de oportunidades de trabalho e desigualdades profundas entre a capital e o interior. Diante dessa realidade, o eleitor tem o direito de perguntar: qual será a prioridade de um senador maranhense em Brasília: lutar contra casamento gay ou saúde para o povo, combater ideologias, banheiro unissex ou educação de qualidade, defender que todos vivam de acordo com sua religião ou buscar melhoria social para as famílias…?
Nesse cenário, é legítimo questionar se o Estado realmente precisa enviar ao Senado mais um representante cuja atuação política tenha como prioridade discutir com quem o cidadão pode se casar, o que adultos podem ou não fazer na intimidade ou qual religião devem professar. Essas questões podem fazer parte do debate democrático, mas não podem se transformar em substitutas de uma agenda séria de desenvolvimento.
O Maranhão precisa de senadores discutindo em Brasília investimentos, infraestrutura, geração de emprego e renda, industrialização, agricultura familiar, educação profissional, saúde especializada, segurança, saneamento, abastecimento de água e desenvolvimento regional. Precisa de representantes capazes de negociar recursos, defender projetos estruturantes e cobrar resultados do Governo Federal. O trabalhador que acorda cedo para sustentar sua família não está esperando de Brasília uma guerra cultural; está esperando emprego, salário, estrada, hospital, escola, água e oportunidade para melhorar de vida.
Isso não significa que religião ou valores pessoais devam ser expulsos da política. Cada cidadão tem o direito de professar sua fé e defender suas convicções. O problema começa quando uma visão particular de mundo pretende se transformar em regra para toda a sociedade. O Brasil é constitucionalmente plural, e o Maranhão também. Católicos, evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana, pessoas de outras crenças e cidadãos sem religião possuem os mesmos direitos. O Estado não existe para escolher a fé do cidadão, tampouco para controlar a vida íntima de adultos que não estejam violando a lei.
Lahésio tem o direito de defender suas posições e seus eleitores têm o direito de escolher representantes que pensem como ele. Mas o eleitor também tem o direito de cobrar muito mais. É preciso saber qual é seu projeto para a economia maranhense, para os municípios pobres, para as rodovias, para os portos, para a agricultura familiar, para a saúde, para a educação e para a geração de empregos. Não basta transformar Brasília em palco permanente de disputas ideológicas enquanto o Maranhão continua esperando soluções para problemas que atravessam gerações.
A eleição de 2026 oferece ao maranhense a oportunidade de discutir que tipo de representação deseja para as duas cadeiras que estarão em disputa no Senado. Lahésio pode apresentar sua agenda conservadora; seus adversários podem apresentar outras propostas. Mas o debate deveria ser maior do que casamento, religião e costumes. O Maranhão não precisa de senadores especializados em dizer ao cidadão como viver sua vida privada. Precisa de representantes capazes de enfrentar a pobreza, promover desenvolvimento e transformar o potencial econômico do Estado em qualidade de vida para sua população. Essa é a cobrança que deveria estar no centro da eleição.




