Aliados históricos da extrema-direita, escolhas para vice e Senado enterram discurso de moderação e escancaram o projeto ideológico do ex-prefeito
Nos bastidores da política maranhense, o discurso da moderação e do equilíbrio de forças acaba de ruir. O ex-prefeito de São Luís, Eduardo Braide, consolidou a composição de sua chapa majoritária e definiu, de forma inequívoca, o seu rumo estratégico: o alinhamento integral com a extrema direita e com o espólio político do ex-presidente Jair Bolsonaro no estado.
A costura política, que se desenhava sob o manto do pragmatismo, ganhou contornos ideológicos nítidos. Ao fechar sua chapa com a empresária bolsonarista Elaine Carneiro na vice, e carimbar as pré-candidaturas de André Fufuca e Lahésio Bonfim ao Senado Federal, Braide joga por terra a imagem de político de centro e importa para o Maranhão a polarização radical que divide o país.
A escolha teve destinatários precisos. De um lado, os chamados “dinistas” — políticos ligados ao ex-governador e atual ministro do STF Flávio Dino — que vinham cortejando Braide em busca de uma aliança e pleiteavam a indicação do vice e uma vaga ao Senado. Braide rejeitou o acordo e, ao optar por uma empresária identificada com o bolsonarismo, enviou um recado inequívoco: não haverá composição com a esquerda.
A Máscara da Moderação e a Contradição de Braide
Historicamente, Eduardo Braide construiu sua trajetória tentando se equilibrar na corda bamba da neutralidade. Diante do eleitorado, sempre vendeu a narrativa de que “não tem lado” entre a esquerda e a direita, blindando-se de debates ideológicos nacionais para focar em uma retórica puramente administrativa.
Contudo, na política, os gestos e as alianças falam mais alto que os discursos. Ao escolher Elaine Carneiro para compor a chapa, Braide não apenas cedeu ao clamor da ala mais conservadora, mas escancarou sua real inclinação. Desde o início do processo eleitoral, o ex-prefeito adota a máxima de “falar uma coisa e fazer outra”, e essa contradição agora cobra o seu preço: a perda do verniz de moderado.
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O Tabuleiro do Senado: O Pragmatismo de Fufuca e o Radicalismo de Lahésio
A composição para o Senado Federal é o retrato mais fiel da guinada à direita do grupo de Braide. De um lado, a chapa traz Lahésio Bonfim, figura que nunca escondeu sua identidade política. Lahésio é a voz da extrema direita sem filtros no estado, um representante autêntico do bolsonarismo que aposta no discurso de confronto e na pauta de costumes.
Do outro lado, surge o deputado federal André Fufuca. Embora tenha ocupado a cadeira de Ministro do Esporte no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a passagem de Fufuca pela Esplanada dos Ministérios sempre foi vista pelo mercado político como mera conveniência e sobrevivência partidária.
A trajetória de Fufuca na política nacional revela suas verdadeiras credenciais:
- Alianças Históricas: Forte ligação com Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e articulador do impeachment de Dilma Rousseff.
- Alinhamento ao Centrão Bolsonarista: Estreita relação com Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas (PP) e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro.
- Fidelidade Partidária: Mesmo ensaiando acenos ao campo progressista nos últimos quatro anos, Fufuca jamais cogitou deixar o PP, sigla que permanece como um dos pilares de sustentação do bolsonarismo no Congresso.
O Risco do “Caos Ideológico” no Maranhão
A guinada de Braide acende um alerta vermelho para o debate público maranhense. Ao cercar-se de atores da extrema direita, o ex-prefeito corre o risco de transformar o estado em um laboratório de guerras culturais e debates paralelos que em nada dialogam com as reais necessidades da população.
Se vitorioso, esse consórcio político ameaça arrastar o Maranhão para um cenário de tensionamento institucional e debates estéreis. Em vez de discussões sérias sobre geração de emprego, combate à pobreza, infraestrutura e educação, o eleitorado corre o risco de passar os próximos anos digerindo cortinas de fumaça ideológicas, tais como:
- Debates vazios sobre banheiros unissex;
- Disseminação de teorias conspiratórias e pautas morais distorcidas;
- Ataques sistemáticos ao Poder Judiciário;
- Criminalização e preconceito contra religiões de matriz africana;
- Promoção do armamentismo desenfreado, ironicamente defendido por figuras que carecem de qualquer preparo técnico ou intelectual para liderar tais discussões.
O Veredito das Urnas
O eleitor maranhense, historicamente resistente a extremismos, agora se depara com um cenário de polarização explícita. Ao fechar as portas para o centro e abraçar a ala mais radical da política nacional, Eduardo Braide fez sua escolha. Resta saber se o Maranhão estará disposto a trocar o foco no desenvolvimento social pelo palanque da guerra ideológica. A precisão dos fatos mostra que a chapa está montada; cabe agora ao eleitorado definir o destino do estado.
